Conto, D. Mnica, 1876

D. Mnica

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, de 8/1876 a 10/1876.

CAPTULO
PRIMEIRO

E, reconhecendo as boas qualidades
do dito meu sobrinho Gaspar, declaro que o nomeio meu universal herdeiro, com
duas condies essenciais; a primeira (deixada ao seu critrio),  que h de
relar os cabedais que lhe lego como os relei durante a minha vida; a segunda
(cujo cumprimento preceder a execuo desta parte do meu testamento)  que h
de casar com minha tia D. Mnica, senhora de altas e respeitveis virtudes...

A leitura das linhas transcritas
acima e fielmente copiadas do testamento com que morreu o Capito Matias do Nascimento,
no dia 2 de novembro de 1857, produziu no sobrinho Gaspar duas impresses to
profundas quo diferentes. A alma de Gaspar subiu ao stimo cu e desceu para o
ltimo abismo, de um lance fez toda a jornada de Dante, ao invs, subindo ao
Paraso e caindo de l no derradeiro crculo do Inferno onde o diabo lhe
apareceu, no com as trs cabeas que o poeta lhe d, mas com pouco mais de
trs dentes, que tantos possua a tia de seu tio.

No traiu, entretanto, o rosto do
rapaz aquela impresso diferente; a situao pedia um ar compungido, e Gaspar
estava ao nvel da situao. Ouviu a leitura at o fim, levantou-se, e foi
desafogar a clera consigo mesmo. Digo a clera porque o mancebo de quem se
trata contava a morte do Capito Matias como um dos sucessos mais afortunados
da vida; esperava por ele imenso tempo, na doce confiana de um legado
volumoso. Em vez de simples deixa, caiu-lhe nas mos a herana toda. O tio fora
alm do que ele supunha merecer: era um tio digno de um mar de lgrimas. Gaspar
no tinha lgrimas, mas tinha um leno, msculos obedientes, e toda a escala
dos sentimentos nos olhos, que eram negros, rasgados e verdadeiramente bonitos.
Mediante o leno, os msculos e os olhos, pde suprir as lgrimas e compungiu a
todos pela dor que aparentemente lhe rasgava as entranhas.

Tudo isto era de efeito salutar se
pudesse suprimir D. Mnica. Mas D. Mnica existia, com seus sessenta anos, os
seus cabelos apenas grisalhos, as suas flores no chapu, a sua elegncia de
1810. Gaspar conhecia perfeitamente o abismo a cuja beira o lanara o capricho
do tio; capricho sagaz e previdente, porque dispunha as coisas para o caso em
que o herdeiro recusasse adotar a condio imposta: nesse caso, dizia o
testamento, toda a herana caberia  mencionada D. Mnica.

 Deus o tenha consigo! exclamou
Gaspar, sozinho no quarto; mas no h negar que tinha tanto juzo como este
chapu de sol. Que quer dizer semelhante condio de amarrar-me  tia Mnica?
Realmente, s por zombaria ou coisa anloga; suponho que estava a caoar de
mim...

Este monlogo que a fica em
resumo, foi interrompido pela entrada de um amigo de Gaspar, o Bacharel Veloso,
rapaz de trinta anos, frio, pacato, sem iluses nem estudos. Veloso era
companheiro de infncia de Gaspar, seu confidente, e no poucas vezes seu
Mentor ao p das Calipsos de arribao.

 Ser certo o que me disseram
agora? perguntou Veloso apertando a mo ao companheiro. Teu tio nomeou-te seu
herdeiro universal...

  certo.

 Mas com a condio de te casares
com D. Mnica.

 Tal qual.

 Se recusares, perdes tudo?

 Se recusar, a tia Mnica vir a
ser herdeira, respondeu Gaspar passeando no quarto. Nada menos que um modo de
obrigar-me a casar.

Veloso sentara-se sacudindo a
cinza do charuto e sorrindo da condio da herana. Houve alguns instantes de
silncio. O primeiro que o rompeu foi o bacharel.

 No, disse ele, respondendo 
ltima reflexo do amigo; no  isso. O que ele quer  deixar D. Mnica sua
universal herdeira.  claro que, se recusar, recebe tudo. Muito tola ser se
consentir em casar contigo, fazendo uma ridcula figura. Poupa-se aos
comentrios do mundo e recebe ainda em cima trezentos contos...

Gaspar estacou no meio da sala. A
observao de Veloso pareceu-lhe exatssima; ao passo que a soma da herana
produziu nele violentssimo abalo.

 Tens razo, disse Gaspar ao cabo
de alguns minutos; h de ser isso. O que ele queria era favorecer a tia Mnica,
levando a minha gratido. Dois reconhecimentos de um golpe: no era mal
calculado.

Gaspar arrependeu-se logo deste
necrolgio, em que entrava muito pouco reconhecimento. Intercalou no discurso
um elogio s qualidades morais do tio, discurso interrompido por alguns apartes
restritivos do bacharel, os quais apartes no eram refutados com a fora que
era de esperar da parte do orador. O que se podia concluir do discurso e dos
apartes  que o tio Matias no passara nunca de um estimvel paspalho.

 H algum que sente mais do que
tu a clusula do testamento, disse Veloso sorrindo, adivinhas, no?

 Lucinda?  impossvel.

 O pai dela.

 Acreditas que o comendador?

 Acredito que entrava muito nos
clculos dele a provvel herana de teu tio. No direi que te recuse agora a
filha; ainda que no seria para admirar...

 Pode ser que lhe no fosse
indiferente um genro com dinheiro; observou Gaspar, no creio, porm, que a
clusula do testamento o leve a opor-se aos desejos da filha.

 No digo que no. Pela tua parte
ests resolvido a abrir mo da herana?

 Oh! de certo!

Veloso levantou-se.

 Muito bem! disse ele.

 Aprovas-me?

 De todo o corao; tanto mais
que...

 Que...

 Que esperava outra coisa.

 Ofendes-me.

 Sou apenas prtico, respondeu
Veloso sorrindo. Eu creio pouco no desinteresse, sobretudo ao p de trezentos
contos. Vejo que s exceo; tanto melhor para ti... e para ela.

 Obrigado!

Gaspar estendeu a mo a Veloso,
que a apertou com efuso. Veio o moleque cham-los para jantar. O jantar foi
melanclico e silencioso; a presena dos criados no exigia outra coisa. Alm
disso, no  certo que tenham bom sabor as sopas de um deserdado.

CAPTULO II

A noite foi desconsolada e triste.
E to triste como a noite foi a seguinte madrugada, que viu o nosso Gaspar de
p, com os olhos cansados de no dormir.

No era para menos o malogro da
vspera. Gaspar vivia h cerca de seis anos somente para o tio Matias, nico
parente seu, alm de D. Mnica; cercava-o de todas as atenes, as mesmas com
que se guarda na carteira um bilhete de loteria. O tio gostava dele e dizia-o e
provava-o. Era um velho bom, afvel, talvez caprichoso e manaco, mas em todo
caso as boas qualidades superavam as aborrecveis. Gaspar s lhe via o melhor
lado; ao menos no dizia outra coisa. Era o seu parceiro obrigado ao gamo, o
seu companheiro nos passeios que ele gostava de dar s vezes de manh; o mais
fiel agente dos seus negcios, e at o leitor obrigado dos debates
parlamentares. Matias no tinha partido, no o tivera nunca; mas o seu lugar,
qualquer que fosse o partido dominante, era a oposio. Nasceu oposicionista,
como outros nascem governistas, pura questo de temperamento. Gaspar, que
entendia tanto de poltica como de snscrito, mostrava-se, entretanto,
interessado e curioso e dava forte apoio s objurgatrias do velho Matias.

 H hoje muito discurso?
perguntava este.

 Pgina e meia de Jornal.

 Que maada para ti!

 Maada? Ora! Alm do prazer que
lhe dou, tenho eu prprio muito gosto em ver bater este governo sem critrio.
J viu nada mais desconsolado?

 No me fales nisso!

E as colunas da folha caam dos
lbios de Gaspar nos ouvidos de Matias, intercaladas pelas ruidosas pitadas
deste ou pelos comentrios de um e outro.

Ora, todo esse trabalho de to
longo tempo ficou repentinamente perdido: os juros que ele contava receber do
vasto cabedal de atenes, carcias, sorrisos, enfados de toda espcie, esses
gulosos juros iam-se-lhe sem deixar o mnimo rastro e o pobre Gaspar voltava
aos seus ordenados de modesto empregado pblico.

O malogro era de afligir o mais
pacato. Gaspar faltou  repartio alm dos sete dias de nojo, mais uns cinco,
quase meio ms ao todo, que lhe foi descontado na folha do pagamento. Alm
disto, que era j bastante, aconteceu que um ou mais dos colegas souberam do
testamento de Matias, da herana de Gaspar e da clusula que aquele lhe pusera
resultando deste conjunto de fatos a convico geral na repartio de que o
casamento de Gaspar e de D. Mnica era coisa certa. Um colega imediatamente
inferior a ele chegou a pedir-lhe a sua interveno para que o ministro lhe
desse o lugar no dia em que ele, endinheirado, pedisse demisso.

 Qual demisso, qual casamento!
respondeu desabridamente o pobre herdeiro, resposta que foi repetida de boca em
boca entre os colegas e comentada durante trs dias.

Uma s coisa podia consolar,
consolar  exagerado  fazer esquecer por alguns instantes o esvaecimento da
herana; era Lucinda. Lucinda era uma mocinha de dezessete anos, cabelos
castanhos, olhos da mesma cor, rosto oval e p de slfide. O p foi o lao em
que o sobrinho de Matias caiu. A metfora pode no ser nova nem bonita, mas 
perfeitamente exata. Lucinda sabia que tinha um p formoso, esguio, leve, como
devem ser os ps dos anjos, um p alado, quando ela valsava e deixava
entrev-lo todo no meio dos giros em que se deixava ir. Sabia disso e gostava
de que lhe admirassem o p; da resultava que, por mais comprido que fosse o
vestido de Lucinda, no havia hiptese de estar ela assentada sem mostrar a
pontinha do sapato. Et tout le monde sait quelle a le pied charmant, podia dizer o poeta. Gaspar fazia como tout le monde;
via o p e adorava-o. Acontece que entre tantos admiradores, Lucinda s
esperava um, aquele que lhe falava ao corao; esse foi Gaspar. O resto
adivinha-se. Amaram-se, disseram-se e pediram-se... um ao outro. O Comendador
Lima, pai da moa, percebeu as conferncias ideais e sentimentais entre o p da
filha e a alma do rapaz, e no lhe pareceu mau casamento.

  bom moo, pensou ele,
empregado srio e tem cabedais no horizonte; posso dar-lhe a pequena.

Gaspar entendeu pelo rosto amvel
do comendador que o seu pedido no viria fora de propsito, e planeava o meio
de requerer a moa com o consentimento do tio quando este se lembrou de mudar o
domiclio passageiro pelo eterno, deixando-lhe o dinheiro e a tia.

A situao mudara; contudo no lhe
pareceu que o comendador mudasse muito com ela. Achou-o certamente mais
reservado e algo frio; mas a filha estava to contente que ele sentiu
renascer-lhe a abalada confiana.

 J sei que me deixas, disse a
moa com um tom de tristeza.

 Deixar-te?

 No te casas?

Gaspar levantou secamente os
ombros.

 Isso no  resposta, disse a
moa.

 Que queres que te diga?

 Que me amas... que no me hs de
trair...

 Lucinda!

 Lucinda no  resposta.

 Criana!

 Ainda menos!

 Pois sim; no te hei de trair...
Trair por que e por quem? Julgas-me um...

A moa desatou a rir, uma risada
que faria morrer a D. Mnica, se a ouvisse e percebesse a coisa, e os dois
namorados passaram a falar do seu futuro. O que os namorados dizem de seu
futuro no  coisa nova para ningum; dizem tudo e no dizem coisa nenhuma,
eloqncia divina, que  melhor experimentar, que julgar, mas julgue-a quem no
experiment-la.

CAPTULO III

D. Mnica soube da clusula de
testamento com viva demonstrao de desagrado. A disposio pareceu-lhe
zombeteira e cruel a um tempo. No era melhor, se o sobrinho queria favorecer
os seus dois parentes, repartir com eles os trezentos contos? Esta foi a
primeira reflexo. A segunda foi de agradecimento, porquanto a recusa da parte
de Gaspar vinha constitu-la herdeira de toda a riqueza, e a clusula
testamentria redundava toda em proveito dela. No sei se isto  interesse e
egosmo, sei que foi a reflexo de D. Mnica. No foi porm a ltima; foi apenas
a segunda, a que ainda sucedeu terceira e quarta. D. Mnica refletiu que havia
no testamento uma lacuna, e era o caso em que, disposto Gaspar a despos-la,
no estivesse ela disposta a aceitar-lhe a mo. A quem pertenceria nesse caso a
herana? Parece que ao rapaz, visto que no casaria por motivo independente de
sua vontade. Enfim, D. Mnica perguntou a si prpria, se o casamento, em tal
idade, era coisa to fora de propsito que a obrigasse a recuar. A resposta foi
negativa, por duas razes: a primeira  que o sobrinho Matias no disporia em
testamento um absurdo, uma coisa que lhe ficasse mal a ela. Sempre o conhecera
respeitoso e seu amigo; a segunda  que ela mesma sentia em si alguns restos
das graas de outro tempo.

D. Mnica relanceou os olhos para
o espelho, comps as duas tranas do cabelo, presas sobre a nuca, a fim de lhes
dar um ar menos sustoso, estudou-se com ateno, e concluiu que, se no era
moa, no era de todo rejeitvel. Uma idia desta  mais difcil de nascer que
de morrer. Uma vez nascida no esprito de D. Mnica, entranhou-se como uma
verruma. Vinte e quatro horas depois era resoluo assentada; mas, como a
conscincia busca muita vez iludir-se a si prpria, D. Mnica lanava a
resoluo  conta da afeio que tinha ao rapaz.

 Que razo tenho eu para retardar
a herana que o tio lhe deixou? dizia ela dentro de si. Aceitando o casamento,
evito chicanas e perda de tempo. Demais  sempre digna de respeito a ltima
vontade de um morto.

Gaspar foi ter com a tia-av,
alguns dias depois de voltar  Secretaria. Ia resolvido a dizer-lhe francamente
a razo que tinha para no aceitar a condio imposta pelo tio, razo que o
leitor sabe ser o amor de Lucinda, alm do horror que inspirava a idia de
obedecer naquele ponto ao tio.

D. Mnica vestira-se nesse dia com
singular apuro. Tinha um vestido de gorgoro preto; srio na cor, mas risonho
na forma, que era um complicado de folhos e babados. Os cabelos dobravam-se em
bands e enquadravam-lhe o rosto, cuja expresso no era severa nem
desconsolada. D. Mnica deixava-se estar na poltrona, quando lhe anunciaram o
sobrinho. A poltrona era larga, pouco mais larga que a tia do capito, que
tinha as formas amplas e refeitas.

 Bem-vindo seja o senhor Gaspar!
exclamou ela logo que o viu assomar  porta. Cuidei que nunca mais queria ver a
sua nica parenta.

 Que idia! respondeu o moo. A
senhora sabe no podia haver tal esquecimento da minha parte.

Disse, e, aproximando-se dela,
beijou-lhe respeitosamente a mo. D. Mnica deu-lha com uma graa estudada, mas
que lhe no ficou mal de todo.

 Senta-te aqui, disse ela
apontando para uma cadeira que lhe ficava ao lado.

Gaspar obedeceu. Apenas sentado,
reconheceu que era mais fcil planear que executar. Calou-se durante algum
tempo, sem saber por onde comeasse. D. Mnica veio em seu auxlio.

 Como vai o inventrio do nosso
pobre Matias? perguntou ela.

 Vai andando, respondeu Gaspar
escondendo um charuto que casualmente tiram da algibeira.

 Fuma, fuma, disse D. Mnica
sorrindo.

Gaspar agradeceu e acendeu um
fsforo continuando a resposta.

 O inventrio no levar muito
tempo; toda a questo ser o negcio da herana...

 Da herana! Por qu? perguntou
D. Mnica. H algum herdeiro que reclame?

 No h nenhum. A senhora sabe
que meu tio nomeou-me seu herdeiro universal, com a condio...

 Sim... interrompeu D. Mnica.

 Peo-lhe que acredite que eu
nunca ousaria exigir da senhora um sacrifcio...

 Eras capaz de sacrificar a
herana? perguntou D. Mnica olhando para ele admirada.

 Era.

D. Mnica refletiu alguns
instantes.

 Compreendo os teus sentimentos,
e admiro o teu desinteresse. Espero contudo que me fars a justia de crer que
eu no consentiria nunca em deserdar-te...

Desta vez foi Gaspar que olhou
admirado para D. Mnica.

 A vontade do capito era
beneficiar-nos a ambos, continuou D. Mnica. Pareceu-lhe que o casamento
correspondia s suas intenes. No refletiu, de certo, na disparidade que h
entre mim e ti; no se lembrou de que podia expor-nos um e outro aos
comentrios do mundo.

 Justamente, respondeu Gaspar.

 Mas o capito morreu e no pode
reparar o mal. Pela minha parte, doer-me-ia se contribusse para que perdesses
a herana... Que razo alegaria eu para faz-lo? A tal ou qual distncia entre
as nossas idades; no tenho, porm, nenhum direito a demorar-me nessa
considerao.

 Mas...

 Um casamento entre ns ser uma
formalidade necessria para receber a herana. No tenho direito de recusar a
formalidade como no teria de recusar a minha assinatura se esta fosse precisa.

 Oh! minha tia! exclamou Gaspar,
o seu corao  bom, mas posso eu abusar...

 No h abusar...

 Nunca!

 Nunca e sempre... So duas palavras
que pedem reflexo, interrompeu D. Mnica levantando a sua pachorra. At outro
dia! No sou to m como poderias supor... Adeus!

 Mas...

D. Mnica estendeu-lhe a mo
sorrindo, e sorrindo com tanta arte, que s um dos dentes lhe apareceu. Gaspar
beijou-lhe a mo; a boa velha encaminhou-se para uma das portas que davam para
o interior. Gaspar ficou pasmado na sala. Dois minutos depois transpunha a
porta que dava para o corredor e descia as escadas.

 Esta agora  melhor! pensava
ele. De maneira que a velha sacrifica-se para me dar gosto?

Vinte minutos depois encontrou
Veloso.

 Sabes o que me acontece?

 No.

 Acho disposio em tia Mnica para casar comigo.

Veloso encostou-se a um portal
para no cair. Quando pde recobrar a fala:

 Impossvel! disse ele.

 Parece impossvel, mas  a pura
verdade.

 De maneira que tu...

 Vou mand-la ao diabo.

Tais eram efetivamente as
intenes de Gaspar. Durante oito dias no voltou  casa de D. Mnica, no tanto
porque as disposies da velha o irritavam, mas porque andava tomado de terror.
A cada passo parecia-lhe ver um padre, um altar, a tia e o casamento celebrado
sem remisso nem agravo.

CAPTULO IV

Entretanto, Lucinda entrou a
desanimar um pouco nas suas esperanas matrimoniais. A situao de Gaspar era
pior do que antes; e sobre ser pior no lhe falava ele em coisa que se
parecesse com casamento. Quais seriam as suas intenes, e que desiluso lhe
preparava o futuro? Um dia abriu-se com ele.

 Oh! Descansa! respondeu Gaspar,
sers minha ainda contra a vontade do cu...

 No blasfemes!

 Falo-te assim, para te mostrar a
resoluo em que estou. E j que me falaste nisto, dir-te-ei que ainda  tempo
de refletir. Bem sei que no amaste em mim os bens da fortuna, que alis nunca
tive. Contudo,  bom que vejas a situao em que me acho. A pouca esperana que
podia haver de melhorar de sorte esvaeceu-se; nada tenho, alm do meu trabalho.
Queres-me assim mesmo?

A moa lanou um olhar de
indignao ao rapaz.

 No me respondes? perguntou
este.

 Com o desprezo, era a nica
resposta que merecias! exclamou Lucinda.

Esta indignao da namorada foi um
blsamo suave lanado no corao do moo. Era muito melhor do que um sorriso ou
um levantar de ombros, ou qualquer outra coisa menos expressiva.

 Perdoas-me? disse ele.

 No!

 Mas no ficas querendo mal?

 Talvez!

 No digas isso! Reconheo que
sou culpado mas a inteno das minhas palavras era a mais pura e inocente!

Lucinda acreditou piamente na pureza
da inteno do rapaz e a conversa encaminhou-se para assuntos menos speros, em
que por enquanto os deixaremos para ir ver em que se ocupa a senhora D. Mnica
durante a longa ausncia de Gaspar.

D. Mnica contou com extrema
ateno e tal ou qual saudade os dias da ausncia do sobrinho. No tardou a
zangar-se com tamanho prazo, at que um dia ergueu-se da cama com a resoluo
de o mandar chamar. Nesse dia a camareira de D. Mnica ps em atividade todos
os seus talentos de ornamentista para reparar os ultrajes dos anos, e repor a
boa senhora em condies menos desfavorveis do que a pusera a natureza. Duas
horas a espartilhar-se e a vestir-se. Ao cabo de todo esse tempo disps o nimo
para receber o esquivo sobrinho a quem escrevera logo de manh.

Todo esse trabalho, porm, foi
intil porque o mencionado sobrinho no apareceu, e D. Mnica teve de
contentar-se com as despesas da toilette.

A esquivana do sobrinho
pareceu-lhe de algum modo ofensiva, duplamente ofensiva, porque o era  sua
pessoa como tia e como mulher. Como mulher  que ela sentiu mais. Ao mesmo
tempo refletiu no caso, e hesitou em crer que o rapaz, sem forte motivo, se
dispusesse a perder nada menos que uma gorda aposentadoria.

 Alguma coisa h de haver por
fora, dizia ela mordendo o lbio com despeito.

E a idia de um namoro foi a
primeira que lhe acudiu ao esprito como a mais natural de todas as
explicaes.

  isso, algum namorico, sabe
Deus com que lambisgia! Sacrifica-se por ela, sem saber o que lhe resultar de
semelhante passo. Pois que se avenham...

A reticncia que a fica no 
minha, foi uma reticncia nervosa que acometeu a pobre senhora, em forma de
tosse, interrompendo o monlogo, a que deu fim a mucama trazendo-lhe a
bandejinha de ch. D. Mnica tomou dois ou trs goles dele e deitou-se da a
alguns minutos. O sono no veio prontamente, mas veio, enfim, cheio de sonhos
cor-de-rosa em que D. Mnica viu realizados todos os seus desejos.

No dia seguinte os bons dias que
recebeu foi uma carta de Gaspar. Dizia-lhe ele, respeitosamente, que era
obrigado a renunciar  honra imposta por seu tio e  herana que lhe advinha
dela, visto ter uma afeio anterior ao testamento do Capito Matias, afeio
sria e decisiva. Consultaria, entretanto, um advogado para liquidar o ponto e
saber se a tia podia ser defraudada de alguma parte da herana, coisa que ele
evitaria por todos os meios possveis. A carta era singela, nobre e
desinteressada; por isso mesmo o desespero de D. Mnica foi aos ltimos
limites.

Gaspar no remeteu aquela carta
sem consultar o seu amigo Veloso, que a ouviu ler e aprovou com restries. A
carta seguiu seu destino, e Gaspar interrogou o bacharel sobre o que achava ele
que dizer ao desengano contido na epstola.

 Acho que o desengano  franco
demais. No  bem isto que eu quero dizer. Acho que no deixas nenhum caminho
para voltar atrs.

 Voltar atrs? perguntou Gaspar
admirado.

 Sim.

 Mas por qu?

 Porque no se despedem to
levianamente trezentos contos. Amanh podes pensar de modo inteiramente diverso
do que pensas hoje...

 Nunca!

 Nada de afirmaes temerrias.

Gaspar levantou os ombros e fez um
gesto de tdio, a que Veloso respondeu sorrindo. Gaspar lembrou-lhe que, logo
que fora aberto o testamento e conhecidas as disposies de seu tio, Veloso lhe
aprovara a resoluo de no aceitar o casamento imposto.

  verdade, retorquiu este; mas,
se  bonito o ato, no impede que absolutamente o devas praticar, nem que seja
prova de juzo seguro.

 Nesse caso, parece-te...

 Que no cedes a consideraes de
dinheiro, o que  prova de honestidade; mas que no h remdio se no ceder
alguma vez a elas, o que  prova de reflexo. A mocidade passa e as aplices
ficam.

Gaspar engoliu um discurso que lhe
veio  ponta da lngua, discurso de indignao, todo inspirado por seus brios
ofendidos; limitou-se a dizer que no dia seguinte ia pedir a mo de Lucinda e
que se casaria no mais breve prazo. Veloso deu-lhe os parabns, e Gaspar foi
dali redigir a carta de pedido ao comendador.

A carta de Gaspar no chegou 
notcia do narrador do caso; mas h motivos para crer que era obra acabada como
simplicidade de expresso e nobreza de pensamento. A carta foi enviada no dia
seguinte; Gaspar aguardou a resposta com a ansiedade que o leitor pode
imaginar.

A resposta no veio imediatamente
como ele cuidava que seria. Esta demora f-lo curtir dores cruis. Escreveu um
bilhete  namorada que lhe respondeu com trs ou quatro monosslabos ttricos e
misteriosos. Gaspar assustado correu  casa do comendador, e achou-a triste,
abatida e reservada. Quis indagar o que havia, mas no teve ocasio.

A razo da tristeza de Lucinda foi
a repreenso que o comendador lhe passou, ao ler o pedido do rapaz.

 Autorizaste semelhante carta?
perguntou o comendador fuzilando-lhe os olhos de clera.

 Papai...

 Responde!

 Eu...

 Eu qu?

 No sei...

 Sei eu, troou o Comendador Lima
indignado; sei que no tiveste fora bastante para desanimar o pretendente. Casar!
No  demais seno casar! Com que havia ele de sustentar casa? Provavelmente
com o que esperava receber de mim? De maneira que eu ajuntei para que um
peralvilho, que no tem onde cair morto, venha desfrutar o que me custou a
haver?

Lucinda sentiu duas lgrimas
borbulharem-lhe nos olhos e fez meno de retirar-se. O pai reteve-a para lhe
dizer em termos menos desabridos que ele no desaprovava nenhuma afeio que
ela tivesse, mas que a vida no se compunha s de afeies, seno de interesses
tambm e necessidades de toda a espcie.

 Esse tal Gaspar no  mau rapaz,
concluiu o comendador, mas no tem posio digna de ti, nem futuro. Por ora
tudo so flores; as flores passam depressa; e quando tu quiseres um vestido
novo ou uma jia, no hs de mandar  modista ou ao joalheiro um pedao do
corao de teu marido. So verdades que deves ter gravadas no esprito, em vez
de te guiares somente por fantasias e sonhos. Ouviste?

Lucinda no respondeu.

 Ouviste? repetiu o comendador.

 Ouvi.

 No basta ouvir,  necessrio
digerir, disse sentenciosamente o pai.

E com este aforismo concluiu o
dilogo  direi antes o monlogo, deixando na alma de Lucinda poucas esperanas
de casamento, ao menos imediato como ela supunha e desejava que fosse. Tal  a
explicao da tristeza e reserva com que recebeu o rapaz naquela noite.
Facilmente se cr que Gaspar no sasse dali com a cara alegre. Nem acharei
entre os leitores nenhum to incrdulo que duvide de que o pobre namorado ficou
to fora de si, que no atinou com a maneira de abrir a porta, e afinal quebrou
a chave, pelo que achou-se no meio da rua,  uma hora da noite, sem ter onde ir
dormir.

Sem casa nem esperanas, 
suplcio excessivo. Gaspar teve idia de ir ter com Veloso e passar a noite com
ele, derramando no seio do amigo todas as suas queixas, e tristezas. S ao cabo
de cinco minutos  que se lembrou de que o bacharel morava no Pedregulho.
Consultou a algibeira cuja resposta foi a mais desanimadora possvel.

Nestas circunstncias ocorreu-lhe
a melhor soluo que podia ter naquela crise: ir pedir pousada a D. Mnica. Ela
morava na Rua dos Invlidos e ele achava-se na Rua do Conde. Embicou para l,
to cheio de suas mgoas, que nem lhe lembravam as que podia ter causado  tia.

Ali chegando, foi-lhe facilmente
aberta a porta. Um escravo dormia no corredor, e no teve dvida em
franquear-lhe a entrada desde que reconheceu a voz de Gaspar. Este contou ao
escravo o que lhe acontecera.

 A vista disto, concluiu ele,
arranja-me a um lugar com que passe a noite, mas sem acordar titia.

D. Mnica tinha dois quartos
trastejados para hspedes; Gaspar foi acomodado em um deles.

CAPTULO V

A dona da casa ficou estupefata no
dia seguinte quando lhe deram conta do ocorrido. Em quaisquer outras circunstncias,
o caso lhe pareceria natural. Naquelas afigurou-se-lhe extraordinrio. Ao mesmo
tempo ficou singularmente satisfeita.

 No o deixes sair sem almoar,
disse ela ao escravo.

A ordem foi cumprida; e Gaspar
viu-se obrigado a faltar  repartio porque D. Mnica, que almoava cedo,
determinou que naquele dia se alterasse o costume. No me atrevo a dizer que o
fim da boa senhora fosse aquilo mesmo, mas tinha ares disso. Verdade seja que a
demora podia explicar-se pela necessidade que ela tinha de vestir-se e
toucar-se convenientemente.

 Oh! no preciso de explicaes,
disse ela quando  mesa do almoo Gaspar quis explicar-lhe a razo do incmodo
que viera dar-lhe. Vieste,  quanto basta; sempre que vieres tens aqui casa e
coraes amigos.

Gaspar agradeceu e almoou.
Almoou triste e preocupado. No reparou nas atenes da tia, no tom carinhoso
com que ela lhe falava, na ternura que havia nos seus olhos; no reparou em nada. D. Mnica, pelo contrrio, reparou em tudo; viu que o sobrinho no estava senhor de si.

 Hs de me contar o que tens,
disse ela quando ficaram ss os dois.

 No tenho nada.

 No me iludas!

 Nada tenho... passei a noite
mal.

D. Mnica no acreditou, mas no
insistiu. O sobrinho, entretanto, sentia necessidade de desabafar com algum; e
no tardou em expor tudo  velha parenta, que o ouviu com religiosa ateno.

 No me admira nada disso,
observou ela quando ele acabou a narrao;  naturalssimo.

 Alguma traio?

 Podia ser; mas no  necessrio
suspeitar traio para explicar a mudana dessa moa.

 Parece-lhe...

 Parece-me que ela amava um
herdeiro, e que...

 Oh! impossvel!

 Por que impossvel?

 Se eu lhe digo que a achei
triste e abatida! O pai, sim,  possvel que o pai se oponha...

 Tambm creio.

 Mas a vontade do pai...

 A vontade do pai h de vencer a
da filha; seus conselhos a persuadiro... disse D. Mnica sorrindo. Que admira?
 o que acontece com moas que sonham no casamento um perptuo baile.

Gaspar ouviu cabisbaixo e triste o
que lhe dizia a velha parenta. Seu corao batia com fora,  medida que o
esprito ia admitindo a plausibilidade da opinio de D. Mnica. Ao mesmo tempo
surgiam-lhe na memria as provas de afeto que Lucinda sempre lhe dera, o
desinteresse manifestado mais de uma vez, e, enfim, a indignao com que ainda
recentemente lhe respondera a uma insinuao acerca da herana.

D. Mnica, pela sua parte,
mostrava os inconvenientes em certa ordem de casamentos comparados com outros,
menos romnticos, mas, muito mais slidos. Gaspar no ouviu, ou ouviu mal, a
preleo da tia. Tinha perdido a repartio: saiu para ir rondar  porta da
namorada.

Na primeira ocasio em que pde
falar a ss com ele (foi da a dois dias), Lucinda referiu-lhe o discurso e os
conselhos do pai, e pediu-lhe que tivesse pacincia e esperasse. Gaspar jurou
por todos os santos do cu que esperaria at a consumao dos sculos. A moa
podia responder que provavelmente nessa poca no estaria em idade de casar,
no lhe acudiu, porm, a resposta e continuou a lastimar-se com ele do
despotismo dos pais e das exigncias sociais.

Gaspar saiu dali disposto a fazer
uma estralada. Vagou longo tempo nas ruas sem assentar em coisa alguma, at
que foi acabar a noite no primeiro teatro que achou aberto. Na pea que se
representava havia um namorado em condies iguais s dele que acabava
matando-se. Gaspar achou que a soluo era violenta demais.

 Oh! eu morrerei por mim mesmo!
exclamou ele saindo do espetculo.

Talvez julgasse que entre a vida e
a morte havia lugar para um bife de grelha, porque o foi comer em um hotel
prximo. A ceia diminuiu-lhe o horror da situao; Gaspar dormiu tranqilo a
noite inteira.

No dia seguinte acordou tarde; e
faltou  repartio, como usava fazer algumas vezes, e seu esprito, mais que
nunca, era avesso ao expediente. Lembrou-se de ir dar um passeio a Niteri para
distrair-se. Embarcou e recolheu-se todo em si, olhando para o mar e o cu.
Pouca gente havia perto; ainda assim, e por mais absorto que ele estivesse, no
pde obstar que lhe chegasse aos ouvidos o seguinte pedao de conversa entre
dois sujeitos desconhecidos.

  o que lhe digo, no caio
nessa.

 Mas por qu?

 Porque no tenho certeza de
ganhar um conto de ris e arrisco-me a perder dez ou doze.

 No creio...

  arriscadssimo!

 Voc  um medroso.

 Medroso, no; prudente. Prudente
como quem lhe custou a arranjar um peculiozinho.

 Peculiozinho? Magano! confesse
que voc tem a os seus cem contecos...

 Por a, por a...

Gaspar suspirou e olhou para o
passageiro que dizia possuir cem contos. Era um homem de cerca de quarenta
anos, vestido com asseio, mas sem apuro nem elegncia. A barca chegava a S.
Domingos; o interlocutor do homem desembarcou, enquanto o outro ficou para ir a
Niteri. Logo que a barca tomou este caminho, Gaspar aproximou-se do
desconhecido:

 No me dir  disse ele  como 
que Vossa Senhoria arranjou cem contos de ris?

O desconhecido olhou espantado
para a pessoa que lhe fazia esta pergunta e ia responder-lhe descortesmente,
quando Gaspar continuou nos termos seguintes:

 Espanta-se naturalmente do que
lhe digo, e tem razo; mas a explicao  simples. Vossa Senhoria v em mim um
candidato a cem contos de ris; ou a mais...

 Mais  melhor, tomou o desconhecido
sorrindo.

 Bastam-me cem.

 Pois o segredo  simples.

 Qual ?

 Ganh-los.

 Oh! isso!

  difcil, bem sei; leva anos.

 Quantos anos levou o senhor?

  muito curioso!

 Oh! se eu lhe contar a minha situao,
compreenderia a singularidade da minha conversa.

O desconhecido nenhuma necessidade
sentiu de saber a vida de Gaspar, e dirigiu a conversa para as vantagens que
podem dar os bens da fortuna. Foi o mesmo que lanar lenha no fogo. Gaspar
sentiu arder em si, cada vez mais, a ambio de possuir.

 Se eu lhe disser que posso ter
trezentos contos de ris amanh?

Os olhos do desconhecido
faiscaram.

 Amanh?

 Amanh.

 Como?

 De um modo simples; casando.

Gaspar no recuou em suas
confidncias; referiu tudo ao desconhecido que o ouvia com religiosa ateno.

 E que faz o senhor que no casa?

 Porque amo a outra pessoa; uma
criatura anglica...

O desconhecido olhou para Gaspar com
tanta compaixo que este sentiu-se envergonhado  envergonhado, sem saber de
qu.

 Bem sei, disse ele, que no h
prudncia nisto; mas o corao... O que eu queria era saber como se pudesse
obter cem contos, para depois...

 Casar com a outra?

 Tal qual.

 No sei. A barca est a chegar e
ns vamos separar-nos. Deixe-me dar-lhe um conselho: case com sua tia.

 Uma velha!

 Trezentos contos.

 Amando a outra!

 Trezentos contos.

A barca chegou; o desconhecido
despediu-se.

Gaspar ficou s, a refletir no
infinito nmero de homens interesseiros que h no mundo. A barca voltou da a
pouco  cidade. Gaspar viu entrar entre os passageiros um homem ainda moo pelo
brao de uma senhora idosa, que ele sups ser sua me, mas que soube ser sua
mulher quando o rapaz a apresentou a um amigo. Vestiam com luxo. O marido,
tendo de tirar um carto de visita da algibeira, mostrou uma carteira recheada
de dinheiro.

Gaspar suspirou.

Chegando  cidade foi  casa da
tia; D. Mnica achou-o ainda muito triste, e lhe disse.

 Vejo que amas loucamente essa
moa. Queres casar com ela?

 Titia...

 Farei o mais que posso; tentarei
vencer o pai.

Gaspar ficou estupefato.

 Oh! disse ele consigo; eu sou
indigno desta generosidade.

CAPTULO VI

O almoo no dia seguinte foi mais
triste que de costume. Gaspar abriu os jornais para passar os olhos por eles; a
primeira coisa que leu foi a sua demisso. Vociferou contra a prepotncia do
ministro, a cruel severidade dos usos burocrticos, a exigncia descomunal do
comparecimento na Secretaria.

  indigno! exclamava ele, 
infame!

Veloso, que entrou da a pouco,
no achou to censurvel o ato do ministro; teve at a franqueza de lhe
declarar que no havia outra soluo, e que o primeiro que o demitira fora ele
mesmo.

Passada a primeira exploso,
examinou Gaspar a situao em que o deixava o ato ministerial, e compreendeu (o
que no era difcil) que o casamento com Lucinda era cada vez mais
problemtico. Veloso foi da mesma opinio, e concluiu que um nico meio lhe
restava: era casar com D. Mnica.

Gaspar foi nesse mesmo dia  casa
de Lucinda. O desejo de a ver era forte; muito mais forte era a curiosidade de
conhecer de que maneira recebera ela a notcia da sua demisso. Achou-a um
pouco triste, mas ainda mais fria que triste. Trs vezes procurou estar a ss
com ela, ou pelo menos falar-lhe sem que pudessem ouvi-los. A moa parecia
esquivar-se aos desejos do rapaz.

 Ser possvel que ela despreze
agora o meu amor? perguntava ele a si mesmo ao sair da casa da namorada.

Esta idia irritou-o
profundamente. No sabendo que pensar daquilo, resolveu escrever-lhe, e nessa
mesma noite redigiu uma carta em que expunha lealmente todas as dvidas do seu
corao.

Lucinda recebeu a carta no dia seguinte
s 10 horas da manh; leu-a, releu-a, e pensou muito antes de responder. Ia
lanar as primeiras linhas da resposta, quando seu pai entrou na saleta onde
ela se achava.

Lucinda escondeu  pressa o papel.

 Que  isso?

 Vamos l; uma filha no pode ter
segredos para seu pai. Aposto que  alguma carta de Gaspar? Pretendente
demitido  realmente...

Lucinda dera-lhe a carta, que o
pai abriu e leu.

 Tolices! disse ele. Ds-me
licena?

Dizendo isto, rasgou a carta e
aproximou-se da filha.

 Vers mais tarde, que eu sou
mais teu amigo do que pareo.

 Perdo, papai, disse a moa; eu
ia responder que no pensasse mais em mim.

 Ah!

 No foi o seu conselho?

O pai refletiu algum tempo.

 A resposta era decerto boa,
observou ele; mas a melhor resposta  nenhuma. Em ele desenganando por si
mesmo, no insiste mais...

Tal  a explicao da falta de
resposta  carta de Gaspar. O pobre namorado esperou dois dias, at que
desenganado foi  casa do comendador. A famlia tinha ido passar alguns dias fora
da cidade.

 A sorte persegue-me! exclamou
furioso o sobrinho do finado capito. Um de ns h de vencer!

Para matar a tristeza e ajudar o
duelo com o destino, procurou fumar um charuto; meteu a mo na algibeira e no
achou nenhum. A carteira apresentava a mesma solido. Gaspar deixou cair os
braos com desnimo.

Nunca mais negra e viva se lhe
apresentara ante os olhos a sua situao. Sem emprego, sem dinheiro, sem
namorada e sem esperanas, tudo era perdido para ele. O pior  que sentia-se
incapaz de domar o destino, apesar do desafio que lhe arremessara pouco antes.
Pela primeira vez a idia dos trezentos contos do tio lhe reluziu ao longo como
uma plausibilidade. A viso era deliciosa, mas o nico ponto negro apareceu
logo dentro de um carro que parou a poucos passos dele. Dentro do carro ia D.
Mnica; ele viu-a inclinar-se pela portinhola e cham-lo.

Acudiu como bom sobrinho que era.

 Que fazes a?

 Ia para casa.

 Anda jantar comigo.

Gaspar no podia trocar uma
realidade por uma hiptese, e aceitou o conselho da tia.

Entrou no carro. O carro partiu.

Seria iluso ou realidade? D.
Mnica pareceu-lhe nessa ocasio menos velha do que antes a achava. Ou fosse da
toilette, ou de seus olhos, a verdade  que Gaspar viu-se obrigado a
reformar um pouco o juzo anterior. No a achou moa; mas a velhice pareceu-lhe
mais fresca, a conversa mais agradvel, o sorriso mais meigo e o olhar menos
apagado.

Estas boas impresses foram bom
tempero ao jantar, que alis era excelente. D. Mnica mostrava-se, como sempre,
carinhosa e boa; Gaspar demorou-se ali at perto das dez horas da noite.

Voltando  casa, refletiu que, se
porventura pudesse casar com outra pessoa que no fosse Lucinda, casaria com D.
Mnica, sem nenhum pesar nem arrependimento.

 No  moa, pensou ele, mas 
boa e so trezentos contos.

Trezentos contos! Este algarismo
perturbou o sono do rapaz. Primeiramente custou-lhe a dormir; ele via trezentos
contos em cima do travesseiro, no teto, nos portais; via-os transformados em lenis,
em cortinados, em cachimbo turco. Quando conseguiu dormir, no conseguiu
livrar-se dos trezentos contos. Sonhou com eles a noite inteira; sonhou que os
comia, que os cavalgava, que os danava, que os aspirava, que os gozava, em
suma, por todos os modos possveis e impossveis.

Acordou e reconheceu que tudo fora
sonho.

Suspirou.

 E tudo isto sacrifico eu por
causa dela! exclamou ele. Merece-lo-? Merecer que eu padea tantas privaes,
que abra mo de um bom casamento para ser desprezado deste modo?

No lhe respondendo ningum a esta
pergunta, f-lo ele prprio, e a resposta foi que a moa no merecia tamanho
sacrifcio.

 Contudo, sacrificar-me-ei!
concluiu ele.

Neste ponto das reflexes recebeu
uma carta da tia:

Gaspar.

Creio que arranjo empenho para que
se te d algum lugar muito breve, em outra secretaria.

Gaspar estremeceu de prazer.

 Boa tia! disse ele. Ah! como lhe
tenho pago com ingratides!

A necessidade de agradecer e a
convenincia de no aumentar a conta no hotel foram as duas razes que levaram
o ex-empregado a ir almoar com a tia. D. Mnica recebeu-o com o carinho do
costume, disse-lhe o que pretendia fazer para empreg-lo de novo e deixou-o
nadando em reconhecimento.

 Ah! minha tia! Quanto lhe devo!

 Nada me deves, respondeu D.
Mnica, s me deves amizade.

 Oh! a maior! a mais profunda! a
mais santa!

D. Mnica louvou os sentimentos do
sobrinho e prometeu fazer por ele tudo o que fosse possvel fazer por... por um
neto,  o que ela devia dizer: mas ficou na vaga expresso  por uma pessoa
cara.

A situao entrou a parecer melhor
ao herdeiro do capito. No s via possibilidade de um novo emprego, mas at
seria este logo depois da demisso, o que de algum modo lhe reparava o mal
feito aos seus crditos de funcionrio laborioso e pontual. Alm disso, D.
Mnica f-lo prometer que no iria comer a outra parte.

 Ters sempre um talher  minha
mesa, disse ela.

Gaspar escreveu ainda duas cartas
a Lucinda; mas ou elas lhe no chegaram s mos, ou a moa definitivamente no
queria responder. O namorado aceitou a princpio a primeira hiptese; Veloso
f-lo acreditar na segunda.

 Tens razo, talvez...

 Sem dvida.

 Mas custa-me a crer...

 Oh!  a coisa mais natural do
mundo!

A idia de que Lucinda o tivesse
esquecido, desde que lhe faltara o emprego era difcil de que a admitisse; mas
afinal enraizou-se-lhe a suspeita.

 Se tais fossem os sentimentos
dela! exclamava ele consigo.

A presena da tia f-lo esquecer
to tristes idias; eram horas de jantar. Gaspar sentou-se  mesa desembaraado
das preocupaes amorosas. Preocupaes de melhor catadura vieram sentar-se-lhe
no esprito: os eternos trezentos contos recomearam a sua odissia na
imaginao dele. Gaspar construiu ali mesmo uma casa elegante, mobiliou-a com
luxo, comprou um carro, dois carros, contratou um feitor para lhe cuidar da
chcara, deu dois bailes, foi  Europa. Chegaram estes sonhos at a sobremesa.
Acabado o jantar, viu ele que tinha apenas a demisso e uma promessa.

 Na verdade, sou um pedao de
asno! exclamou ele. Pois tenho a fortuna nas mos e hesito?

D. Mnica levantara-se da mesa;
Gaspar foi ter com ela.

 Sabe de uma coisa em que estou
pensando? perguntou.

 Em matares-te.

 Em viver.

 Pois vive.

 Mas viver feliz.

 J sei como.

 Talvez no saiba dos meus
desejos. Eu, titia...

Ia ser mais franco. Mas depois de
encarar o abismo, quase a cair nele, recuou. Era mais difcil do que lhe
parecia, aquilo de receber trezentos contos. A tia, porm, compreendeu que o
sobrinho voltava a adorar o que havia queimado. No tinham outro fim todos os
seus desvelos.

Gaspar adiou a declarao mais
explcita e sem que com isto perdesse a tia, porque os vnculos se foram
apertando a mais e mais, e os trezentos contos de todo se sentaram na alma do
moo. Estes aliados de D. Mnica derrotaram completamente o adversrio. Nem
tardou que ele comunicasse a idia a Veloso.

 Tinhas razo, disse ele; devo
casar com minha tia e estou disposto a faz-lo.

 Ainda bem!

 Devo satisfazer o desejo de um
morto, sempre respeitvel e enfim corresponder aos desvelos com que ela me
trata.

 Perfeitamente. J lhe falaste?

 No; falarei amanh.

 nimo.

Na noite desse dia recebeu Gaspar uma
carta de Lucinda, em que ela lhe dizia que o pai, vendo-a triste e abatida, e
sabendo que era por amor dele, cedera da sua oposio e consentia em que eles
fossem unidos.

 Que cara  essa to espantada?
perguntou Veloso, que estava presente.

 A coisa  para espantar. O
comendador cedeu...

 O pai de Lucinda?

  verdade!

 Essa agora!

 L.

Veloso leu a carta de Lucinda.

 Na verdade, o lance era
inesperado. Pobre moa! V-se que escreve com a alma banhada em alegria!

 Parece que sim. Que devo fazer?

 Oh! neste caso, a situao 
diferente do que era h pouco; os obstculos da parte oposta caram por si
mesmos.

 Mas ser de boa vontade que o
comendador cede?

 Isso importa pouco.

 Receio que seja um lao.

 Lao? Ora essa! exclamou Veloso
sorrindo. O mais que podia ser era negar o dote  filha. Mas sempre tens
esperana da parte que lhe tocar por morte do pai. Quantos filhos tem ele?

 Cinco.

 Uns cinqenta contos a cada um.

 Ento, parece-te que devo...

 Sem dvida.

Veloso saiu; Gaspar ficou
meditando na situao. Poupo  leitora a exposio das longas e complicadas
reflexes que ele fez, bastando dizer que no dia seguinte ainda a questo
estava neste p:

 Devo eu desobedecer a voz de um
morto? Trair a esperana de uma senhora que me estima, que me estremece?

Vinte e quatro horas depois estava
enfim resolvida a questo. Gaspar declarou a D. Mnica que estava disposto a
casar com ela, se consentisse em dar-lhe esse prazer. A boa senhora no tinha outro
desejo; contudo, foi fiel  mxima do sexo; fez-se um tanto rogada.

 Resolvi! disse Gaspar a Veloso
logo que o encontrou depois disso.

 Ah!

 Caso-me.

 Com a Lucinda?

 Com minha tia.

Veloso recuou dois passos e esteve
calado alguns instantes.

 Admiras-te?

 Admiro-te. Afinal os trezentos
contos...

 Ah! no! Obedeo  vontade de
meu tio, e no posso corresponder com ingratido aos desvelos de uma senhora
que me estima. Ser isto poesia, talvez; talvez me acusars de romanesco; mas
eu penso que sou simplesmente honrado e leal.

Veloso foi convidado para servir
de padrinho do casamento. Aceitou o encargo;  amigo da famlia; e consta que
deve a Gaspar uns trs ou quatro contos de emprstimo. Lucinda chorou durante
dois dias, ficou raivosa outros dois; no quinto encetou um namoro, que acabou
pelo casamento da a quatro meses. No era melhor que todos eles comeassem por
a? Poupavam a si prprios alguns desgostos, e a mim o trabalho de lhes contar
o caso.
