Conto, Um Dstico, 1886

Um dstico

Texto Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis, Vol.
II,

Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

Publicado originalmente em A Quinzena, n. 7, 1. de julho de 1886

Quando a memria da gente  boa,
pululam as aproximaes histricas ou poticas, literrias ou polticas. No 
preciso mais que andar, ver e ouvir. J uma vez me aconteceu ouvir na rua um
dito vulgar nosso, em to boa hora que me sugeriu uma linha do Pentateuco,
e achei que esta explicava aquele, e da orao verbal deduzi a inteno ntima.
No digo o que foi, por mais que me instiguem; mas aqui est outro caso no
menos curioso, e que se pode dizer por inteiro.

J l vo vinte anos, ou ainda
vinte e dois. Foi na Rua de S. Jos, entre onze horas e meio-dia. Vi a alguma
distncia parado um homem de opa, creio que verde, mas podia ser encarnada. Opa
e salva de prata, pedinte de alguma irmandade, que era das Almas ou do
Santssimo Sacramento. Tal encontro era muito comum naqueles anos, to comum que
no me chamaria a ateno, se no fossem duas circunstncias especiais.

A primeira  que o pedinte falava
com um pequeno, ambos esquisitos, o pequeno falando pouco, e o pedinte olhando
para um lado e outro, como procurando alguma coisa, algum, ou algum modo de
praticar alguma ao. Depois de alguns segundos foram andando para baixo, mas
no deram muitos passos, cinco ou seis, e vagarosos; pararam, e o velho  o
pedinte era um velho,  mostrou ento em cheio o seu olhar espalhado e
inquisidor.

No direi o assombro que me causou
a vista do homem. J ento ia mais perto. Cara e talhe, era nada menos que o
porteiro de um dos teatros dramticos do tempo, S. Pedro ou Ginsio; no havia
que duvidar, era a mesma fisionomia obsequiosa de todas as noites, a mesma
figura do dever, sentada  porta da platia, recebendo os bilhetes, dando as
senhas, calada, sossegada, j sem comoo dramtica, tendo gasto o corao em
toda a sorte de lances, durante anos eternos.

Ao v-lo agora, na rua, de opa, a
pedir para alguma igreja, assaltou-me a lembrana destes dois versos clebres:

Le matin catholique et le soir idoltre,

Il dne de lglise et soupe du thtre.

Ri-me naturalmente deste ajuste de
coisas; mas estava longe de saber que o ajuste era ainda maior do que me
parecia. Tal foi a segunda circunstncia que me chamou a ateno para o caso.
Vendo que pedinte e porteiro constituam a mesma pessoa, olhei para o pequeno e
reconheci logo que era filho de ambos, tal era a semelhana da fisionomia, o
queixo bicudo, o jeito dos ombros do pai e do filho. O pequeno teria oito ou
nove anos. At os olhos eram os mesmos: bons, mas disfarados.

 ele mesmo, dizia eu comigo; 
ele mesmo, le matin catholique, de opa e salva, contrito, pede de porta
em porta a esmola dos devotos, e o sacristo que lhe d naturalmente a
porcentagem do servio; mas logo  tarde despe a opa de seda velha, enfia o
palet de alpaca, e l vai ele para a porta do deus Momo: et le soir
idoltre.

Enquanto eu pensava isto, e ia
andando, resolveu ele afinal alguma coisa. O pequeno ficou ali mesmo na
calada, olhando para outra parte, e ele entrou num corredor, como quem vai
pedir alguma esmola para as bentas almas. Pela minha parte fui andando; no
convinha parar, e a principal descoberta estava feita. Mas ao passar pela porta
do corredor, olhei insensivelmente para dentro, sem plano, sem crer que ia ver
qualquer coisa que merecesse ser posta em letra de impresso.

Vi meia calva do pedinte, meia
calva s, porque ele estava inclinado sobre a salva, fazendo mentalmente uma
coisa, e fisicamente outra. Mentalmente nunca soube o que era; talvez refletia
no conclio de Constantinopla, nas penas eternas ou na exortao de S. Baslio
aos rapazes. No esqueamos que era de manh; le matin catholique.
Fisicamente tirava duas notas da salva, e passava-as para o bolso das calas.
Duas? Pareceram-me duas; o que no posso dizer  se eram de um ou dois
mil-ris; podia ser at que cada uma tivesse o seu valor, e fossem trs
mil-ris, ao todo: ou seis, se uma fosse de cinco e outra de um. Mistrios
tudo; ou, pelo menos questes problemticas, que o bom senso manda no
investigar, desde que no  possvel chegar a uma averiguao certa. L vo
vinte anos bem puxados.

Fui andando e sorrindo de pena,
porque estava adivinhando o resto, como o leitor, que talvez nasceu depois
daquele dia; fui andando, mas duas vezes, voltei a cabea para trs. Da
primeira, vi que ele chegava  porta e olhava para um lado e outro, e que o
pequeno se aproximava; da segunda, vi que o pequeno metia o dinheiro no bolso,
atravessava a rua, depressa, e o pedinte continuava a andar, bradando: Para
a missa...

Nunca pude saber se era a missa
das Almas ou do Sacramento, por no ter ouvido o resto, e no me lembrar tambm
se a opa era encarnada ou verde. Pobres almas, se foram elas as defraudadas! O
certo  que vi como esse obscuro funcionrio da sacristia e do teatro realizava
assim mais que textualmente esta parte do dstico: il dne de lglise et
soupe du thtre.

De noite fui ao teatro. J tinha
comeado o espetculo; ele l estava sentado no banco, srio, com o leno
encarnado debaixo do brao e um mao de bilhetes, na mo, grave, calado, e sem
remorsos.
