Conto, O Caso Barreto, 1892.htm

O caso Barreto

Texto Fonte:

Relquias de Casa Velha, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Edies W. M.
Jackson, 1938.

Publicado originalmente em A Estao 15 de
maro de 1892

 Sr. Barreto, no falte amanh, disse
o chefe de seo; olhe que temos de dar essa cpia ao ministro.

 No falto, venho cedo.

 Mas, se vai ao baile, acorda
tarde.

 No, senhor, acordo cedo.

 Promete?

 Acordo cedo, deixe estar, a
cpia fica pronta. At amanh.

Qualquer pessoa menos advertida
afirma logo que o amanuense Barreto acordou tarde no dia seguinte, e engana-se.
Mal tinham batido as seis horas, abriu os olhos e no os fechou mais. Costumava
acordar s oito e meia ou nove horas, sempre que se recolhia s dez ou onze da
noite; mas, andando em teatros, bailes, ceias e expedies noturnas, acordava
geralmente s onze horas da manh. Em tais casos, almoava e ia passar o resto
do dia na charutaria do Brs, Rua dos Ourives. A reputao de vadio,
preguioso, relaxado, foi o primeiro fruto desse mtodo de vida; o segundo foi
no andar para diante. Havia j oito anos que era amanuense; alguns
chamavam-lhe o marca-passo. Acrescente-se que, alm de falhar muitas vezes,
saa cedo da repartio ou com licena ou sem ela, s escondidas. Como  que
lhe davam trabalhos e trabalhos longos? Porque tinha bonita letra e era
expedito; era tambm inteligente e de compreenso fcil. O pai podia t-lo
feito bacharel e deputado; mas era to estrina o rapaz, e de tal modo fugia a
quaisquer estudos srios, que um dia acordou amanuense. No pde dar crdito
aos olhos; foi preciso que o pai confirmasse a notcia.

 Entras de amanuense, porque
houve reforma na Secretaria, com aumento de pessoal. Se houvesse concurso, 
provvel que fugisses. Agora a carreira depende de ti. Sabes que perdi o que
possua; tua me est por pouco, eu no vou longe, os outros parentes conservam
a posio que tinham, mas no creio que estejam dispostos a sustentar
malandros. Agenta-te.

Morreu a me, morreu o pai, o Barreto
ficou s; ainda assim achou uma tia que lhe dava dinheiro e jantar. Mas as tias
tambm morrem; a dele desapareceu deste mundo dez meses antes daquela cpia que
o chefe de seo lhe confiou, e que ele ficou de concluir no dia seguinte,
cedo.

Cedo acordou, e no foi pequena
faanha, porque o baile acabou s duas horas, e ele chegou  casa perto das
trs. Era um baile nupcial; casara-se um companheiro de colgio, que era agora
advogado principiante, mas ativo e de futuro. A noiva era rica, neta de um
ingls, que meteu em casa cabeas louras e suas ruivas; a maioria, porm,
compunha-se de brasileiros e de alta classe, senadores, conselheiros,
capitalistas, titulares, fardas, veneras, ricas jias, belas espduas, caudas,
sedas, e cheiros que entonteciam. Barreto valsou como um pio, fartou os olhos
em todas aquelas coisas formosas e opulentas, e principalmente a noiva, que
estava linda como as mais lindas. Ajuntai a isso os vinhos da noite, e dizei se
no era caso de despertar ao meio-dia.

A preocupao da cpia podia
explicar esse madrugar do amanuense.  certo, porm, que a excitao dos
nervos, o tumulto das sensaes da noite, foi a causa originria da interrupo
do sono. Sim, ele no acordou, propriamente falando; interrompeu o sono, e
nunca mais pde reat-lo. Perdendo a esperana, consultou o relgio, faltavam
vinte minutos para as sete. Lembrou-se da cpia.   verdade, tenho de acabar a
cpia...

E assim deitado, ps os olhos na parede,
fincou ali os ps do esprito, se me permitem a expresso, e deu um salto no
baile. Todas as figuras, danas, contradanas, falas, risos, olhos e o resto,
obedeceram  evocao do jovem Barreto. Tal foi a reproduo da noite, que ele
chegou a ouvir a mesma msica s vezes, e o rumor dos passos. Reviveu as gratas
horas to velozmente passadas, to prximas e j to remotas.

Mas, se esse rapaz ia a outros
bailes, divertia-se, e, pela prpria roda em que nascera, costumava ter
daquelas festas, que razo havia para a excitao particular em que ora o
vemos? Havia uma longa cauda de seda, com um bonito penteado por cima, duas
prolas sobre a testa, e dois olhos embaixo da testa. Beleza no era; mas tinha
graa e elegncia de sobra. Perdei a idia de paixo, se a tendes; pegai na de
um simples encontro de salo, um desses que deixam algum sulco, por dias, s
vezes por horas, e se desvanecem sem grandes saudades. Barreto danou com ela,
disse-lhe algumas palavras, ouviu outras, e trocou meia dzia de olhares mais
ou menos longos.

Entretanto, no era ela a nica
pessoa que se destacava no quadro; vinham outras, comeando pela noiva, cuja
influncia no esprito do amanuense foi profunda, porque lhe deu a idia de
casar.

 Se eu me casasse? perguntou ele
com os olhos na parede.

Tinha vinte e oito anos, era
tempo. O quadro era fascinador; aquele salo, com tantas ilustraes, aquela
pompa, aquela vida, as alegrias da famlia, dos amigos, a satisfao dos
simples convidados, e os elogios ouvidos a cada momento, s portas, nas salas:
 Magnfica festa!  A noiva  linda  Casamento feliz!  Que me diz a
este baile?  Oh! esplndido!  Todas essas vistas, pessoas e palavras eram
de animar o nosso amanuense, cuja imaginao batia as asas pelo estreito mbito
da alcova, isto , pelo universo.

De barriga para o ar, as pernas
dobradas, e os braos cruzados sobre a cabea, Barreto formulava, pela primeira
vez, um programa de vida, olhava para as coisas com seriedade, e chamava a
postos as foras todas que pudesse ter em si para lutar e vencer. Oscilava
entre a recordao e o raciocnio. Ora via as galas da vspera, ora dava nos
meios de as possuir tambm. A felicidade no era um fruto que fosse preciso ir
buscar  lua, pensava ele; e a imaginao provava que o raciocnio era
verdadeiro, mostrando-lhe o noivo da vspera e na cara deste a sua prpria.

 Sim, dizia Barreto consigo,
basta um pouco de boa vontade, e eu posso ter muita. H de ser aquela. Parece
que o pai  rico; ao menos ter alguma coisa para os primeiros tempos. O resto
 comigo. Um mulhero! O nome  que no  grande coisa: Ermelinda. O nome da
noiva  que  realmente delicioso: Ceclia! Mangano! Ah! mangano! Achou noiva
para o seu p...

Noiva para o seu p f-lo rir e
mudar de posio. Voltou-se para o lado, e olhou para os sapatos, a certa
distncia da cama. Lembrou-se que podiam ter sido rodos das baratas, esticou o
pescoo, viu o verniz intacto, e ficou tranqilo. Mirou os sapatos com amor;
no s eram bonitos, bem feitos, mas ainda acusavam um p pequeno, coisa que
lhe enchia a alma. Tinha horror aos ps grandes,  ps de carroceiro, dizia,
ps do diabo. Chegou a tirar um dos seus, de baixo do lenol, e contempl-lo
por alguns segundos. Depois encolheu-o novamente, coou-o com a unha de um dos
dedos do outro p, gesto que lhe trouxe  memria o adgio popular  uma mo
lava a outra,  e naturalmente sorriu. Um p coa outro, pensou. E, sem
advertir que uma idia traz outra, pensou tambm nos ps das cadeiras e nos ps
dos versos. Que eram ps de verso? Dizia-se verso de p quebrado. P de flor,
p de couve, p de altar, p de vento, p de cantiga. P de cantiga seria o
mesmo que p de verso? A memria neste ponto cantarolou uma copla ouvida em no
sei que opereta, copla realmente picante e msica mui graciosa.

 Tem muita graa a Jenny! disse
ele, concertando o lenol nos ombros.

A cantora fez-lhe lembrar um
sujeito grisalho que a ouvia uma noite, com tais derretimentos de olhos que fez
rir alguns rapazes. Barreto riu tambm, e mais que os outros, e o sujeito
grisalho avanou para ele, furioso, e agarrou-o pela gola. Ia dar-lhe um murro;
mas o nosso Barreto deu-lhe dois, com tal mpeto que o obrigou a recuar trs
passos. Gente no meio, gritos, curiosos, polcia, apito, e foram ter ao corpo
da guarda. A soube-se que o sujeito grisalho no avanara para o moo com o
fim de se despicar do riso, por imaginar que se risse dele, mas por supor que
estava mofando da cantora.

 Eu, senhor?

 Sim, senhor.

 Mas se at a aprecio muito!
Para mim  a melhor que temos atualmente nos nossos teatros.

O sujeito grisalho acabou
convencido da veracidade de Barreto, e a polcia mandou-os em paz.

 Um homem casado! pensava agora o
rapaz, recordando o episdio. Eu, quando casar, hei de ser coisa muito
diferente.

Tornou a pensar na cauda e nas
prolas do baile.

 Realmente, um bom casamento. No
conhecia outra mais elegante... Mais bonita havia no baile; uma das Amarais,
por exemplo, a Julinha, com os seus grandes olhos verdes,  uns olhos que
faziam lembrar os versos de Gonalves Dias... Como eram mesmo? Uns olhos cor de
esperana...

Que, ai, nem sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!

No se lembrando do princpio da
estrofe, teimou por ach-lo, e acabou vencendo. Repetiu a estrofe, uma, duas,
trs vezes, at decor-la inteiramente, para no esquec-la mais. Bonitos
versos! Ah! era um grande poeta! Tinha composies que haviam de ficar
perptuas na nossa lngua, como o Ainda uma vez, adeus! E Barreto, em
voz alta, recitou este comeo:

Enfim te vejo! Enfim, posso,

Curvado a teus ps, dizer-te

Que no cessei de querer-te

Pesar de quanto sofri!

Muito penei! Cruas nsias,

De teus olhos apartado,

Houveram-me acabrunhado

A no lembrar-me de ti.

 Realmente,  bonito! exclamou
outra vez de barriga para o ar. E aquela outra estrofe,  como ?  aquela que
acaba:

Quis viver mais, e vivi!

Desta vez, trabalho em vo; a
memria no lhe acudiu com os versos do poeta; em compensao, trouxe-lhe uns do
prprio Barreto, versos que ele sinceramente rejeitou do esprito, vexado da
comparao. Para consolar o amor-prprio, disse que era tempo de tratar de
negcios srios. Versos de criana. Toda a criana faz versos. Vinte e oito
anos; era tempo de seriedade. E o casamento voltou, como um parafuso, a
penetrar no corao e na vontade do nosso rapaz. A Julinha Amaral no era
grande negcio, e demais j andava meio presa ao filho do conselheiro Barros,
que advogava com o pai, e diziam que ia longe. Todas as filhas do baro de
Meireles eram bonitas, menos a mais moa, que tinha cara de pau. Verdade  que
danava como um anjo.

 Mas a Ermelinda... Sim, a
Ermelinda no  to bonita, mas tambm no se pode dizer que seja feia; tem s
os olhos miudinhos demais e o nariz curto, mas  simptica. A voz  deliciosa.
E tem graa, o ladro, quando fala. Ainda ontem...

Barreto recordou, salvo algumas
palavras, um dilogo que tivera com ela, no fim da segunda valsa. Passeavam:
ele, no sabendo bem que dissesse, falou do calor.

 Calor? disse ela admirada.

 No digo que esteja quente, mas
a valsa agitou-me um pouco.

 Justamente, acudiu a moa; em
mim produziu efeito contrrio; estou com frio.

 Ento, constipou-se.

 No,  costume antigo. Sempre
que valso, tenho frio. Mame acha que eu vim ao mundo para contrariar todas as
idias. O senhor espanta-se?

 Seguramente. Pois a agitao da
valsa...

 Aqui temos um assunto,
interrompeu Ermelinda; era o nico modo de tirar alguma coisa do calor. Se
concordssemos, estava esgotada a matria. Assim, no; teimo em dizer que
valsar faz frio.

 No  m idia. Ento, se eu lhe
disser que valsa muito mal...

 Eu acredito o contrrio, e
provo... concluiu ela, estendendo-lhe a mo.

Barreto cingiu-a ao turbilho da valsa.
De fato, a moa valsava bem; o que mais impressionou o nosso amanuense, alm da
elegncia, foi o desembarao e a graa da conversao. As outras moas no so
assim, disse ele consigo, depois que a conduziu a uma cadeira. E ainda agora
repetia a mesma coisa. Realmente, era espirituosa. No podia achar melhor
noiva,  de momento, ao menos; o pai era bom homem; no o recusaria por ser
amanuense. A questo era aproximar-se dela, ir  casa, freqent-la; parece que
eles tinham assinatura no Teatro Lrico. Vagamente lembrava-se de lhe haver
ouvido isso, na vspera; e pode ser at que com inteno. Foi, foi intencional.
Os olhares que ela lhe lanou traziam muita vida. Ermelinda! Bem pensado, o
nome no era feio. Ermelinda! Ermelinda! No podia ser feio um nome que acabava
pela palavra linda. Ermelinda! Barreto deu por si a dizer alto:

 Ermelinda!

Assustou-se, riu-se, repetiu:

 Ermelinda! Ermelinda!

A idia de casar fincou-se-lhe de
vez no crebro. De envolta com ela vinha a de figurar na sociedade por seus
prprios mritos. Era preciso deixar a crislida de amanuense, abrir as asas de
chefe. Que  que lhe faltava? Tinha inteligncia, prtica, era limpo, no
nascera das ervas. Bastava energia e disposio. Pois ia t-las. Ah! porque no
obedecera aos desejos do pai, formando-se, entrando na Cmara dos Deputados?
Talvez fosse agora ministro. No era de admirar a idade, vinte e oito anos; no
seria o primeiro. Podia muito bem ser ministro, ordenanas atrs. E o Barreto
lembrava-se da entrada do ministro na Secretaria, e imaginava-se a si mesmo
naquela situao, com farda, chapu, bordados... Logo depois, compreendia que
estava longe, agora no,  no podia
ser. Mas era tempo de ganhar posio. Quando fosse chefe, casado em boa
famlia, com uma das primeiras elegantes do Rio de Janeiro, e um bom dote, 
acharia compensao aos erros passados...

 Tenho de acabar a cpia, pensou
Barreto repentinamente.

E achou que o melhor modo de
crescer era trabalhar. Pegou no relgio que ficara sobre a mesa, ao p da
cabeceira da cama: estava parado. Mas no andava quando acordou? Ps-lhe o
ouvido, agitou, estava parado de vez. Deu-lhe corda, ele andou um pouco, mas
parou logo.

  uma espiga do tal relojoeiro
das dzias, murmurou o Barreto.

Sentou-se na cama um tanto
reclinado, e cruzou as mos sobre o estmago. Notou que no tinha fome, mas
tambm comera bem no baile. Ah! os bailes que ele havia de dar, com ceia, mas
que ceias! Aqui lembrou-se que ia pr gua na boca aos companheiros da
Secretaria, contando-lhes a festa e as suas fortunas; mas no as contaria com
ar de pessoa que nunca viu luxo. Falaria naturalmente, aos pedaos, quase sem
interesse. E comps alguns trechos de notcias, ensaiou de memria as atitudes,
os movimentos. Talvez algum o achasse com olheiras.  Foi pandega, no? 
No, responderia ele, fui ao baile.  Ah! Voc foi
sempre ao baile? Que tal esteve?  O baile? Diria com fastio; esteve
magnfico. E continuou assim o provvel dilogo, compondo, emendando,
riscando palavras, mas de maneira que acabasse contando tudo sem parecer que
dizia nada. Diria o nome de Ermelinda ou no? Este problema gastou-lhe mais de
dez minutos; concluiu que, se lho perguntassem, no havia mal em diz-lo, mas
no lho perguntando, que interesse havia nisso? Evidentemente nenhum.

Ficou ainda outros dez minutos,
pensando  toa, at que deu um salto, e ps as pernas fora da cama.

 Meu Deus! H de ser tarde.

Calou as chinelas e tratou de ir
s ablues; mas logo aos primeiros passos, sentiu que as danas o tinham
fatigado deveras. A primeira idia foi descansar; tinha para isso uma excelente
poltrona, ao p do lavatrio; achou, porm, que o descanso podia levar longe e
no queria chegar tarde  Secretaria. Iria at mais cedo; s dez e meia, no
mximo, estaria l. Banhou-se, ensaboou-se, deu-se todo aos cuidados pessoais,
gastando o tempo do costume, e mirando-se ao espelho, vinte e trinta vezes.
Tambm era costume. Gostava de ver-se bem, no s para retificar uma coisa ou
outra, mas para contemplar a prpria figura. Afinal comeou a vestir-se, e no
foi pequeno trabalho, porque era meticuloso em escolher meias. Mal tirava umas,
preferia outras; e j estas lhe no serviam, ia a outras, tornava s primeiras,
comparava-as, deixava-as, trocava-as; afinal, escolheu um par cor de canela, e
calou-as; continuou a vestir-se. Tirou camisa, meteu-lhe os botes e enfiou-a;
fechou bem o colarinho e o peito, e s ento foi  escolha das gravatas, tarefa
mais demorada que a das meias. Costumava faz-lo antes, mas desta vez estivera
pensando no discurso que dispararia ao diretor, quando este lhe dissesse:

 Ora viva! Muito bem! Hoje
madrugou! Vamos  cpia.

A resposta seria esta:

 Agradeo os cumprimentos; mas
pode o Sr. diretor estar certo que eu, comprometendo-me a uma coisa, fao-a,
ainda que o cu venha abaixo.

Naturalmente, no gostou do final,
porque torceu o nariz, e emendou:

 ...comprometendo-me a uma coisa,
hei de cumpri-la fielmente.

Isto  que o distraiu, a ponto de
vestir a camisa sem ter escolhido a gravata. Foi s gravatas e escolheu uma,
depois de pegar, deixar, tornar a pegar e a deixar umas dez ou onze. Adotou uma
de seda, cor das meias, e deu o lao. Reviu-se ento longamente no espelho, e
foi s botas, que eram de verniz e novas. J lhes tinha passado um pano; era s
cal-las. Antes de as calar, viu no cho, atirada por baixo da porta, a Gazeta
de Notcias. Era uso do criado da casa. Levantou a Gazeta e ia p-la
na mesa, ao p do chapu, para l-la ao almoo, como de costume, quando deu com
uma notcia do baile. Ficou pasmado! Mas como  que podia a folha de manh
noticiar um baile, que acabou to tarde? A notcia era curta, e podia ter sido
escrita antes de terminar a festa,  uma hora da noite. Viu que era
entusistica, e reconheceu que o autor havia estado presente. Gostou dos
adjetivos, do respeito ao dono da casa, e advertiu que entre as pessoas citadas
figurava o pai de Ermelinda. Insensivelmente sentara-se na poltrona, e indo
dobrar a folha, deu com estas palavras em letras grandes: Horrvel! Sete
mortes! A narrao era longa, entrelinhada; comeou a ver o que seria, e, em
verdade, achou que era gravssimo. Um homem da Rua das Flores matara a mulher,
trs filhos, um padeiro e dois policiais, e ferira a mais trs pessoas.
Correndo pela rua fora, ameaava a toda a gente, e toda a gente fugia, at que
dois mais animosos puseram-se-lhe em frente, um com um pau, que lhe quebrou a
cabea. Escorrendo sangue, o assassino ainda corria na direo da Rua do Conde;
a foi preso por uma patrulha, depois de luta renhida. A descrio da notcia
era viva, bem feita; Barreto leu-a duas vezes; depois leu a parte relativa 
autpsia, um pouco por alto; mas demorou-se no depoimento das testemunhas.
Todas eram acordes em que o assassino nunca dera motivo de queixa a ningum.
Tinha 38 anos, era natural de Mangaratiba, e empregado no Arsenal de Marinha.
Parece que houve uma discusso com a mulher, e duas testemunhas disseram ter
ouvido ao assassino: Esse tratante no h de voltar aqui!. Outras no
acreditavam que as mortes tivessem tal origem, porque a mulher do assassino era
boa pessoa, muito trabalhadeira e sria; inclinaram-se a um acesso de loucura.
Conclua a noticia dizendo que o assassino estivera agitado e fora de si; 
ultima hora ficara prostrado, chorando, e chorando pela mulher e pelos filhos.

 Que coisa horrvel! exclamou
Barreto. Quem se livra de uma destas?

Com a folha nos joelhos, fitou os
olhos no cho, reconstruindo a cena pelas simples indicaes do noticiarista.
Depois, tornou  folha, leu outras coisas, o artigo de fundo, os telegramas, um
artigo humorstico, cinco ou seis prises, os espetculos da antevspera, at
que se levantou de repente lembrando-se que estava perdendo tempo. Acabou de
vestir-se, escovou o chapu com toda a pacincia e cuidado, p-lo na cabea
diante do espelho, e saiu. No fim do corredor, reparou que levava a Gazeta,
para l-la ao almoo, mas j estava lida. Voltou, deitou a folha por baixo da
porta do quarto e saiu  rua.

Dirigiu-se para o hotel em que
costumava almoar, e no era longe. Ia apressado para desforrar o tempo
perdido; mas no tardou que a natureza vencesse, e o passo tornou ao de todos
os dias. Talvez a causa fosse a bela Ermelinda, porque, havendo pensado ainda
uma vez no noivo, a moa veio logo, e a idia do casamento meteu-se-lhe no
crebro. No teve outra at chegar ao hotel.

 Almoo, almoo, depressa! disse
ele sentando-se  mesa.

 Que h de ser?

 Faa-me depressa um fil e uns
ovos.

 O costume.

 No, no quero batatas hoje.
Traga petit-pois... Ou batatas mesmo, venha batatas, mas batatas
miudinhas. Onde est o Jornal do Comrcio?

O criado trouxe-lhe o Jornal,
que ele comeou a ler, enquanto lhe faziam o almoo. Correu  notcia do
assassinato. Quando lhe trouxeram o fil, perguntou que horas eram.

 Faltam dez minutos para o
meio-dia, respondeu o criado.

 No me diga isso! exclamou o
Barreto espantado.

Quis comer s carreiras, ainda contra
o costume; despachou efetivamente o almoo o mais depressa que pde,
reconhecendo sempre que era tarde. No importa; prometera acabar a cpia, iria
acab-la. Podia inventar uma desculpa, um acidente, qual seria? Doena, era
natural de mais, natural e gasto; estava farto de dores de cabea, febres,
embaraos gstricos. Insnia, tambm no queria. Um parente enfermo, noite
velada? Lembrou-se que j uma vez explicara uma ausncia por esse modo.

Era meia hora depois do meio-dia,
quando bebeu o ultimo gole de ch. Ergueu-se e saiu. Na rua parou. A que horas
chegaria? Tarde para acabar a cpia, para que ir  Secretaria to tarde? O
diabo fora o tal assassinato, trs colunas de leitura. Maldito bruto! Matar a
mulher e os filhos. Aquilo foi bebedeira, de certo. Assim reflexionando, ia o
Barreto, caminhando para a Rua dos Ourives, sem plano, levado pelas pernas, e
entrou na charutaria do Brs. J l achou dois amigos.

 Ento, que h de novo? perguntou
ele, sentando-se. Tem passado muito rabo de saia?
