Crtica, Peregrinao pela provncia de S. Paulo. por A. E. Zaluar, 1863

Peregrinao pela provncia de S.
Paulo. por A. E. Zaluar, 1863, Garnier, editor.

Texto-Fonte:

Crtica
Literria de
Machado de Assis,

Rio de
Janeiro: W. M. Jackson, 1938.

Publicado
originalmente no Dirio do Rio de Janeiro, 16/11/ 1863.

No sei que hajam muitas coisas acima do prazer de
viajar. Viajar  multiplicar a vida. De pas em pas, de costumes em costumes,
o homem que nasceu com propenso e gosto para isso, renova-se e transforma-se.
Mas, fique bem claro,  preciso ter gosto e propenso;  preciso ser poeta; os
lorpas tambm viajam; mas, porque lhes falta o dom natural de apreciar e sentir
as coisas, aborrecem-se por vaidade, ou divertem-se por aberrao.

Aos que no podem ir ver com os olhos da carne as
terras e os costumes alheios, reserva-se um prazer, um tanto ilusrio, mas,
ainda assim, suficiente para almas de boa tempera:  a narrao dos viajantes
poetas. Diante de um livro de viagens, escrito por um poeta, o homem
reparte-se; deixa em casa a outra de Xavier de Maistre, e vai todo nas
asas da imaginao aos lugares per lustrados pelo escritor.

Estou no caso; e no poucas vezes tenho empreendido
excurses dessa natureza.

Devo dizer que sou em extremo exigente: no quero
perder de vista o viajante de modo tal que o livro me parea romance; nem t-lo
to presente que me faa crer que estou lendo uma autobiografia. Quero o
viajante em um meio termo, desaparecendo, quando  a vez da natureza, dos
costumes, ou dos fatos, e aparecendo quando se torna preciso apreci-los ou
explic-los.

Apesar do ttulo restrito e das desculpas do
prefcio, o Itinerrio de Paris a Jerusalm , em algumas pginas, um
livro para fazer sentir, e est perfeitamente no caso. Sempre que li a passagem
do poeta pelo solo de Esparta, senti com ele a venerao e o respeito diante da
ltima runa da ptria de Licurgo. No sei que mola oculta me fazia voltar aos
tempos que se foram e me punha diante dos heris antigos. Igual comoo me
tomou diante do tumulus do cantor de Ilion. As coisas e os monumentos
so de si venerveis e poticos; mas, se uma pena mgica os no retratasse e
referisse,  certo que os sentimentos se revelariam tbios e por metade.

E j que falo do Itinerrio, deixem-me citar
o autor, em apoio do que asseverei acima. Tanto  verdade que o escritor no
deve ser aodado em aparecer de contnuo nas suas narrativas, que o prprio
Chateaubriand l diz no prefcio  que o desculpem de falar muitas vezes de
si, mas  que no intentava dar aquelas pginas  publicidade.

Estas consideraes vm muito a propsito
encabeando a Peregrinao pela provncia de S. Paulo, do sr. A. E.
Zaluar, onde o preceito , a tempo, respeitado com severidade e infringido com
muita freqncia. Todavia, no esqueam a natureza do livro; no  precisamente
um livro de viagem, escrito com a inteno e no ponto de vista das obras desta
natureza.  uma coleo de cartas, lavradas  proporo que o poeta visitava um
municpio; no lugar em que descansava,  noite, anotava as impresses recebidas
durante o dia.  propriamente um itinerrio, mas um itinerrio de poeta, onde o
rio, a floresta, a montanha, no passam sem o tributo da poesia e do corao.

Pede a verdade que se diga  que quando o poeta
avista a natureza, d-lhe a saudao devida, mas de cima do seu cavalo; no se
apeia para penetrar nela. V-se que ele tem pressa de chegar  pousada, e que
antes de l chegar tem uma estrada para examinar, e uma reflexo econmica ou
administrativa a fazer.

Esta ltima observao  toda em louvor da obra do
sr. Zaluar. Os que gostam de sentir os influxos da poesia, que as florestas de
nossa terra oferecem, l encontram, com que satisfazer o esprito; mas,
atravessando rapidamente os municpios da provncia de S. Paulo, o poeta nunca
perde de vista o fim e a causa da viagem.

Era ento redator do Paraba, e, escrevendo
em cartas as suas impresses, tinha por fim apontar nas colunas daquela folha,
que to importante era, muitas questes de ordem prtica, resolver algumas,
suscitar outras, enfim tirar das suas excurses uma base para estudos futuros
de incontestvel proveito e oportunidade.

Se por circunstncias que no vm a plo
esmerilhar, a folha de Petrpolis cessou, e o fim do jornalista viajante ficou
malogrado, nem por isso as cartas perderam do que valiam e do que poderiam
valer. As questes suscitadas ou estudadas so especiais aos lugares e aos
tempos; existem hoje do mesmo modo e com a mesma importncia. Nem o autor as restringe;
quando as indica, tira os corolrios gerais e procura ampliar os seus estudos
pela universalidade das aplicaes.  portanto, um livro atual e genrico.

Isto no que respeita s consideraes de ordem
prtica. No resto, como j disse, h muito que apreciar. Os desenhos
rapidamente lapisados,  proporo que as telas naturais passavam  ilharga do
poeta; as lendas poticas dos lugares introduzidas com felicidade no livro; o
estudo dos costumes, a histria dos edifcios, tudo isso se acha travado de modo
a estabelecer a diverso para interessar mais o leitor.

No se perca de vista o ttulo destas linhas:  uma
simples notcia bibliogrfica. Nem o tempo, nem os meios intelectuais me do
lugar, para coisa melhor. Sou obrigado a terminar, remetendo os leitores para a
obra, e afirmando-lhes que no se ho de arrepender. Tenho por intil uma
recomendao mais calorosa. Quando um escritor de talento consegue a justa
nomeada do sr. A. E. Zaluar, o prprio nome  a sua recomendao.

O sr. A. E. Zaluar no descansa;  um trabalhador
infatigvel. Compreende que o talento obriga e no se esquece nunca de que tem
uma misso a desempenhar. Pode estar certo de que, tarde ou cedo, deste ou
daquele modo, ter o proveito das tenacidades conscienciosas.
